26 de dez de 2008

O que nasce deve morrer

Pergunta: É permanente a consciência que testemunha?
Maharaj: Não é permanente. O conhecedor surge e desaparece com o conhecido.
Aquele em que ambos, o conhecedor e o conhecido, surgem e desaparecem, está além do tempo. As palavras “permanente” e “eterno” não tem aplicação aqui.

P: No sono profundo não existem nem o conhecido nem o conhecedor. O que mantém o corpo sensível e receptível?
M: Não pode dizer de nenhum modo que o conhecedor estava ausente. Não havia experiência de coisas e pensamentos, isso é tudo. Mas a ausência de experiência também é uma experiência. É como entrar em uma habitação escura e dizer: “não vejo nada”. O homem cego de nascimento não sabe o que significa a escuridão. De maneira similar, só o conhecedor sabe que não sabe. O sono profundo é meramente um lapso da memória. A vida continua.

P: E o que é a morte?
M: É a mudança do processo de vida de um corpo individual. A integração acaba, e começa a desintegração.

P: E o que acontece com o conhecedor? Com o desaparecimento do corpo, desaparece o conhecedor?
M: Assim como o conhecedor do corpo aparece no nascimento, na morte ele desaparece.

P: E não resta nada?
M: Resta a vida. A consciência necessita um veículo e um instrumento para sua manifestação. Quando a vida produzir outro corpo, outro conhecedor vem a existir.

P: Há uma união causal entre os sucessivos corpos/conhecedores ou corpos/mentes?
M: Sim, existe algo que poderia ser chamado corpo da memória, ou corpo causal, um registro de tudo que se pensou, quis e se fez. É como um nuvem de idéia agrupadas

P: O que é este sentido de existência separada?
M: Um reflexo em um corpo separado da única realidade. Neste reflexo se confundem o ilimitado com o limitado, tomados como o mesmo. Desfazer esta confusão é o propósito da yoga.

P: A morte não desfaz esta confusão?
M: Na morte, só morre o corpo. A vida não morre, a consciência não morre, a realidade não morre. Inclusive, a vida nunca está tão viva como depois da morte.

P: Mas volta-se a renascer?
M: O que nasceu deve morrer. Só o que não nasceu é imortal. Encontre o que nunca dorme e nunca desperta, e cujo o pálido reflexo é nosso sentido de “eu”.

P: O que devo fazer para encontrá-lo?
M: Como você encontra alguma coisa? Pondo o coração e mente nela. Deve haver interesse e recordação constantes. Recordar o que necessita ser recordado é o segredo do êxito. Chega-se a ele mediante a seriedade

P: Quer dizer simplesmente que o desejo de descobrir é suficiente? Certamente serão necessárias qualificações e oportunidades.
M: Estas chegarão com a seriedade. O que é supremamente importante é liberar-se das contradições; a meta e o caminho não devem estar em níveis diferentes; a vida e a luz não devem opor-se, o comportamento não
deve trair as crenças. Chame-o de honestidade, integridade, totalidade; não deve ir para trás, desfazer, desenraizar, abandonar o terreno conquistado. A tenacidade de propósito e a honestidade na busca o levarão a sua meta.

Eu Sou Aquilo - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj