27 de dez de 2008

Ensonhar

Dom Juan Matus definia sonhando como o ato de usar sonhos normais como uma autêntica entrada para a consciência nos outros domínios da percepção. Para ele, essa definição implicava que os sonhos comuns podiam ser usados como uma portinhola que conduzia a percepção para outras regiões de energia diferente da energia do mundo da vida cotidiana e, no entanto, absolutamente semelhante a ela em um núcleo básico. Para os feiticeiros, o resultado de uma tal entrada era a percepção de mundos verdadeiros nos quais eles podiam viver ou morrer, mundos que eram estarrecedoramente diferentes do nosso e, no entanto, absolutamente semelhantes.

Pressionado por uma explicação linear sobre essa contradição, Dom Juan Matus reiterava a posição padrão dos feiticeiros: de que as respostas para todas as perguntas estavam na prática e não na inquisição intelectual. Ele dizia que, para conversarmos sobre tais possibilidades, precisaríamos usar a sintaxe da linguagem, qualquer que fosse a linguagem que falássemos, e que aquela sintaxe, pela força da utilização, limita as possibilidades perceptivas encontradas no mundo em que vivemos.

Dom Juan fazia uma importante diferenciação entre dois verbos em espanhol: um era sonhar, soñar, e o outro era ensoñar, que é sonhar da maneira que os feiticeiros sonham.

De acordo com o que Dom Juan ensinava, a arte de sonhar se originou de uma observação muito casual que os feiticeiros do antigo México fizeram quando viam pessoas que estavam adormecidas. Eles notaram que durante o sono o ponto de aglutinação era deslocado, de uma maneira muito natural e simples, da sua posição habitual e que se movia para qualquer lugar ao longo da periferia da esfera luminosa ou para qualquer lugar no interior dela. Correlacionando a sua visão com os relatos das pessoas que tinham observado dormindo, eles perceberam que, quanto maior o deslocamento observado do ponto de aglutinação, mais estarrecedores eram os relatos dos acontecimentos e cenas vivenciadas em sonhos.

Após essa observação se apoderar deles, os feiticeiros começaram a procurar avidamente oportunidades para deslocarem os seus próprios pontos de aglutinação. Acabaram usando plantas psicotrópicas para conseguir isso. Muito rapidamente perceberam que o deslocamento ocasionado pelo uso dessas plantas era errático, forçado e fora de controle. Contudo, no meio desse fracasso, descobriram uma coisa de grande valor. Chamaram-na de atenção ao sonhar.

Dom Juan explicava esse fenômeno referindo-se primeiro à consciência diária dos seres humanos como a atenção colocada nos elementos do mundo da vida cotidiana. Ele salientava que os seres humanos só lançavam um olhar superficial e, contudo, sustentado para todas as coisas que os cercavam. Mais do que examinar as coisas, os seres humanos simplesmente estabeleciam a presença daqueles elementos através de um tipo especial de atenção, um aspecto específico da sua consciência geral.

A sua alegação era que o mesmo tipo de “olhar”, por assim dizer, superficial mas sustentado podia ser aplicado aos elementos do sonho comum. Ele chamava esse outro aspecto específico da consciência geral de atenção ao sonhar ou a capacidade que os praticantes adquirem de manter a consciência inflexivelmente fixada nos itens dos seus sonhos.

O cultivo da atenção ao sonhar deu aos feiticeiros da linhagem de Dom Juan uma taxinomia básica dos sonhos. Descobriram que a maior parte dos seus sonhos era imaginação, produtos da cognição do seu mundo diário. Entretanto havia alguns que escapavam a essa classificação. Tais sonhos eram estados verdadeiros de consciência intensificada nos quais os elementos do sonho não eram simples imaginação, mas ocorrências geradoras de energia. Para os xamãs, os sonhos que tinham elementos geradores de energia eram sonhos em que eles eram capazes de ver a energia como ela fluía no universo.

Esses xamãs eram capazes de focalizar sua atenção ao sonhar em qualquer elemento dos seus sonhos e, dessa forma, descobriram que existem dois tipos de sonhos. Um são os sonhos com os quais todos nós estamos familiarizados, nos quais elementos fantasmagóricos entram em ação, algo que poderíamos categorizar como produto da nossa mentalidade, da nossa psique; talvez algo que tenha a ver com a nossa constituição neurológica. O outro tipo de sonhos eles chamavam de sonhos geradores de energia.

Dom Juan dizia que aqueles xamãs dos tempos antigos se descobriram em sonhos que não eram sonhos e sim verdadeiras visitas feitas, em estado parecido com o sonho, a lugares autênticos que não eram deste mundo – lugares reais, exatamente como o mundo no qual vivemos; lugares onde os objetos do sonho geravam energia assim como, para um feiticeiro vidente, as árvores, os animais ou até mesmo as rochas geram energia no nosso mundo diário.

Entretanto, para os xamãs, suas visões de tais lugares eram efêmeras demais, temporárias demais para lhe serem de algum valor. Eles atribuíam essa falha ao fato de que os seus pontos de aglutinação não podiam ser mantidos fixos por qualquer tempo considerável na posição para a qual tinham sido deslocados. As suas tentativas de remediar a situação resultaram na outra arte magna da feitiçaria: a arte de hastear.

Um dia Dom Juan definiu as duas artes com muita clareza quando me disse que a arte de sonhar consistia em deslocar propositalmente o ponto de aglutinação da sua posição habitual. A arte de hastear consistia em voluntariamente fazê-lo permanecer fixado na nova posição para a qual tinha sido deslocado.

Essa fixação permitia aos feiticeiros do antigo México a oportunidade de testemunharem outros mundos em toda a sua extensão. Dom Juan dizia que alguns desses feiticeiros nunca mais voltaram de suas viagens. Em outras palavras, optaram por permanecer lá, onde quer que “lá” possa ter sido.

Quando os antigos feiticeiros acabaram de mapear os seres humanos como esferas luminosas – disse-me Dom Juan certa vez -, eles tinham descoberto nada menos que seiscentos locais na esfera luminosa total que eram locais de mundos genuínos. Isso queria dizer que, se o ponto de aglutinação se fixasse em qualquer um daqueles lugares, o resultado era a entrada do praticante em um mundo totalmente novo.

-Mas existem esse seiscentos mundos, Dom Juan? – perguntei.
-A única resposta para essa pergunta é incompreensível – disse ele rindo. – Ela é a essência da feitiçaria, contudo não significa nada para a mente comum. Esses seiscentos mundos estão na posição do ponto de aglutinação. Para que tal resposta faça sentido, são necessárias incalculáveis quantidades de energia. Nós temos a energia. O que nos falta é a facilidade ou a disposição de usá-la.

Eu acrescentaria que nada poderia ser mais verdadeiro do que todas essas declarações e, no entanto, nada poderia fazer menos sentido.

Dom Juan explicava a percepção comum nos termos em que os feiticeiros da sua linhagem a entendiam: em sua focalização habitual, o ponto de aglutinação recebe um influxo de campos de energia do universo como um todo na forma de filamentos luminosos, chegando ao número de trilhões. Uma vez que sua posição é consistentemente a mesma, o raciocínio lógico dos feiticeiros era que os mesmos campos de energia, na forma de filamentos luminosos, convergem para o ponto de aglutinação e o atravessam proporcionando, como resultado consistente, a percepção do mundo que conhecemos.

Esses feiticeiros chegaram à inevitável conclusão de que, se o ponto de aglutinação fosse deslocado para uma posição, um outro conjunto de filamentos energéticos o atravessaria resultando na percepção de um mundo que, por definição, não era o mesmo do mundo da vida cotidiana.

Na opinião de Dom Juan, o que os seres humanos consideram normalmente como sendo perceber é mais o ato de interpretar dados sensoriais. Ele mantinha que, desde o momento do nascimento, todas as coisas ao nosso redor nos supriam com uma possibilidade de interpretação e que, com o tempo, essa possibilidade se transforma em um sistema completo através do qual conduzimos todas as nossas transações perceptivas no mundo.

Ele salientava que o ponto de aglutinação não era apenas o centro onde a percepção é agrupada, mas também o centro onde a interpretação de dados sensoriais é realizada. Sendo assim, se mudasse a localização, interpretaria o novo influxo de campos de energia nos mesmíssimos termos que interpreta o mundo da vida cotidiana. O resultado dessa nova interpretação é a percepção de um mundo estranhamente semelhante ao nosso e, no entanto, intrinsecamente diferente. Dom Juan dizia que, energeticamente aqueles outros mundos são tão diferentes do nosso quanto poderiam ser. Só a interpretação do ponto de aglutinação é que é responsável pelas aparentes semelhanças.

Dom Juan necessitava de uma nova sintaxe que pudesse ser usada para expressar essa assombrosa qualidade do ponto de aglutinação e as possibilidades de percepção ocasionadas pelo sonhar. No entanto ele admitia que, se essa experiência se tornasse disponível a qualquer um de nós e não simplesmente aos xamãs iniciados, a sintaxe atual da nossa linguagem talvez pudesse ser forçada a abrange-la.

Uma coisa relacionada ao sonhar que era de tremendo interesse para mim, mas que me deixou completamente confuso no final, era a afirmação de Dom Juan de que realmente não havia nenhum procedimento que ensinasse alguém como sonhar. Dizia que, mais do que qualquer outra coisa, sonhar era um esforço árduo por parte dos praticantes para se porem em contato com a indescritível força que a tudo permeia, que os feiticeiros do antigo México chamavam de intento. Uma vez que essa ligação estivesse estabelecida, sonhar também se estabeleceria misteriosamente. Dom Juan afirmava que essa ligação poderia ser realizada seguindo qualquer padrão que implicasse disciplina.

Quando lhe pedi que me desse uma explicação sucinta dos procedimentos envolvidos, ele riu de mim.

-Ao aventurar-se no mundo dos feiticeiros – disse ele – não é como aprender a dirigir um carro. Para dirigir um carro, você precisa de manuais e de instruções. Para sonhar, você precisa intentá-lo.

-Mas como posso intentá-lo? – insisti.
-A única maneira como você poderia intentá-lo é intentando-o – declarou ele. – Uma das coisas mais difíceis para um homem dos nossos dias aceitar é a falta de procedimentos. O homem moderno está nos paroxismos dos manuais, das praxes, dos métodos, dos passos que conduzem a alguma coisa. Está incessantemente tomando notas, fazendo diagramas, profundamente envolvido em saber como fazer. Porém, no mundo dos feiticeiros, os procedimentos e os rituais são meros esquemas para atrair e focaliza a atenção. São estratagemas usados para forçar uma concentração de interesse e determinação. Não têm nenhum outro valor.

Para sonhar, o que Dom Juan considerava ser de suprema importância é a execução rigorosa dos passes mágicos: o único estratagema que os feiticeiros da sua linhagem usavam para auxiliar o deslocamento do ponto de aglutinação. A execução dos passes mágicos dava àqueles feiticeiros a estabilidade e a energia necessárias para suscitar a sua ‘atenção ao sonhar’, sem o que, para eles, não havia nenhuma possibilidade de sonhar. Sem a emergência da atenção ao sonhar, o máximo que os praticantes poderiam aspirar era ter sonhos lúcidos sobre mundos fantasmagóricos. Talvez pudessem ter visões de mundos que geram energia, mas, para eles, elas não fariam nenhum sentido na ausência de um fundamento lógico abrangente que as categorizasse adequadamente.

Uma vez que os feiticeiros da linhagem de Dom Juan tinham desenvolvido a sua atenção ao sonhar, eles perceberam que tinham tocado nas portas do infinito. Tinham sido bem sucedidos na ampliação dos parâmetros da sua percepção normal. Descobriram que o seu estado normal de consciência era infinitamente mais variado do que tinha sido antes do advento da sua atenção ao sonhar. Daquele ponto em diante, os feiticeiros poderiam verdadeiramente se aventurar no desconhecido.

-O aforismo o céu é o limite – disse Dom Juan – era mais aplicável aos feiticeiros dos tempos antigos. Certamente, eles se superaram.

-Para eles, era realmente verdade que o céu é o limite, Dom Juan? – perguntei.
-Essa pergunta só poderia ser respondida por cada um de nós individualmente – disse ele sorrindo efusivamente. – Eles nos deram as ferramentas. Depende de nós, individualmente, usá-las ou rejeitá-las. Em essência, estamos sozinhos diante do infinito e a questão de sermos ou não capazes de alcançarmos os nossos limites precisa ser respondida pessoalmente.

Carlos Castaneda - Passes Mágicos

Tensegridade

Tensegridade é a versão moderna dos passes mágicos dos xamãs do antigo México. A palavra Tensegridade é uma definição mais apropriada, porque é uma mistura de dois termos, ‘tensão e integridade’: termos que significam as duas forças propulsoras dos passes mágicos. A atividade criada contraindo e relaxando os tendões e músculos do corpo é ‘tensão’; ‘integridade’ é o ato de considerar o corpo como uma unidade saudável, completa e perfeita.

A Tensegridade é ensinada como um sistema de movimentos, porque essa é a única maneira como poderia ser abordado o misterioso e vasto assunto dos passes mágicos em uma conjuntura moderna. As pessoas que hoje praticam a Tensegridade não são praticantes xamãs em busca de alternativas xamanísticas que envolvem disciplina, esforço e privações rigorosos. Portanto, a ênfase dos passes mágicos precisa ser no valor deles como movimentos e em todas as conseqüências que tais movimentos acarretam.

Dom Juan Matus tinha explicado que, em relação aos passes mágicos, o primeiro impulso dos feiticeiros da sua linhagem que viveram no México em tempos antigos foi o de se saturarem com movimentos. Eles organizaram cada postura, cada movimento do corpo, dos quais podiam se lembrar, em grupos. Acreditavam que, quanto mais extenso o grupo, maior o seu efeito de saturação e maior a necessidade dos praticantes de usarem suas memórias para lembrá-los.

Após organizarem os passes mágicos em grandes grupos e praticarem-nos como seqüências, os xamãs da linhagem de Dom Juan julgaram que esse critério de saturação havia cumprido os seus objetivos e o suprimiram. Dali em diante, o desejado era o oposto: a fragmentação dos grandes grupos em segmentos simples, que eram praticados como unidades individuais independentes. A maneira como Dom Juan Matus ensinou os passes mágicos para o seus quatro discípulos – Taisha Abelar, Florinda Donner-Grau, Carol Tiggs e eu – foi o produto dessa orientação para a fragmentação.

A opinião pessoal de Dom Juan era que o benefício de praticar os grandes grupos era patentemente óbvio; tal prática forçava os iniciados xamãs a usarem sua memória cinestética. Ele considerava o uso da memória cinestética como um verdadeiro prêmio no qual aqueles xamãs tinham tropeçado acidentalmente e que tinha o maravilhoso efeito de calar o barulho da mente: o ‘diálogo interno’.

Dom Juan tinha me explicado que a maneira como reforçamos nossa percepção do mundo e a mantemos fixada em um determinado nível de eficácia e função é conversarmos conosco mesmos.

-Toda a raça humana – disse-me ele numa ocasião – mantém um determinado nível de função e eficácia através do diálogo interno.
O diálogo interno é a chave para manter o ponto de aglutinação estacionário na posição compartilhada por toda a raça humana: na altura das omoplatas, a um braço a distância.

“Realizamos o oposto do diálogo interno, isto é, o silêncio interior, os praticantes podem romper a fixação dos seus pontos de aglutinação, adquirindo assim uma extraordinária fluidez de percepção".

A prática da Tensegridade tem sido organizada em torno da realização dos grandes grupos que, nas Tensegridade, foram renomeados como séries para evitar a implicação genérica de chamá-los simplesmente de grupos, como Dom Juan fazia. Para realizar essa organização, foi necessário restabelecer os critérios de saturação que tinham inspirado a criação dos grandes grupos. Os praticantes da Tensegridade precisaram de anos de trabalho meticuloso e concentrado para reunirem novamente um grande número de grupos desmembrados.

Restabelecer os critérios da saturação através da realização das grandes séries trouxe, como resultado, algo que Dom Juan já havia definido como o objetivo moderno dos passes mágicos: a redistribuição de energia. Dom Juan estava convencido de que esse sempre tinha sido o objetivo não verbalizado dos passes mágicos, mesmo na época dos antigos feiticeiros. Os antigos feiticeiros não pareciam ter sabido disso, mas, mesmo que tenham sabido, nunca o conceitualizaram nesses termos. Por todas as indicações, o que os antigos feiticeiros buscavam avidamente e que experimentavam como uma sensação de bem-estar e de plenitude quando realizavam os passes mágicos era, em essência, o efeito da energia não utilizada sendo recuperada pelos centros de vitalidade do corpo.

Na Tensegridade, os grandes grupos foram reunidos novamente e um grande número de fragmentos foi mantido como unidades funcionais simples. Essas unidades foram atadas com um propósito – por exemplo, o propósito de intentar ou o propósito de recapitulação ou o propósito de silêncio interior e assim por diante -, criando desse modo as séries da Tensegridade. Dessa maneira foi alcançado um sistema no qual os melhores resultados são buscados através da realização de grandes seqüências de movimentos que definitivamente sobrecarregam a memória cinestética dos praticantes.
Em todos os outros aspectos, a maneira de ensinar Tensegridade é uma reprodução fiel da maneira como Dom Juan ensinava os passes mágicos aos seus discípulos. Eles os inundava com uma profusão de detalhes e deixava suas mentes atordoadas com a quantidade e a variedade dos passes mágicos ensinados e com a implicação de que cada um deles individualmente era um caminho para o infinito.

Os seus discípulos passaram anos acabrunhados, confusos e, acima de tudo, desanimados, porque achavam que serem inundados dessa maneira era uma injusta investida violenta contra eles.

Uma vez, quando questionei a respeito do assunto, ele me explicou:

-Quando ensino os passes mágicos a vocês, estou seguindo o estratagema dos feiticeiros tradicionais de enevoar a sua visão linear. Saturando a memória cinestética de vocês, estou lhes criando um caminho para o silêncio interior.

“Uma vez que todos nós estamos cheios até a borda com o que precisamos fazer e com o que não precisamos fazer no mundo da vida cotidiana, temos muito pouco espaço para a memória cinestética. Você deve ter notado que você não tem nenhum espaço. Quando quer imitar meus movimentos, você não consegue permanecer me encarando. Precisa ficar ao meu lado para estabelecer no seu próprio corpo o que é direito e o que é esquerdo. Agora, se uma grande seqüência de movimentos lhe era apresentada, isso lhe custaria semanas de repetição para se lembrar de todos os movimentos. Enquanto você está tentando memorizar os movimentos, precisa abrir espaço para eles em sua memória afastando outras coisas do caminho. Esse era o efeito que os antigos feiticeiros buscavam.

A alegação de Dom Juan era que, se seus discípulos continuassem a praticar obstinadamente os passes mágicos, apesar da confusão deles, chegariam a um limiar no qual sua energia redistribuída faria pender a balança e eles seriam capazes de usar os passes mágicos com absoluta certeza.

Quando Dom Juan fez essas declarações, mal consegui acreditar nelas. Contudo, em um determinado momento, exatamente como ele havia dito, parei de ficar confuso e desanimado. De uma maneira muito misteriosa, os passes mágicos, uma vez que são mágicos, se organizaram em seqüências extraordinárias que esclareceram tudo. Dom Juan explicou que a clareza que eu estava experimentando era o resultado da redistribuição da minha energia.

Hoje em dia, a preocupação das pessoas que praticam a Tensegridade pode comparar-se exatamente a minha preocupação e à das outras discípulas de Dom Juan, quando começamos a realizar pela primeira vez os passes mágicos. Elas se sentem atordoadas com a quantidade de movimentos. Reitero para elas o que Dom Juan reiterava repetidamente para mim: o que é de suprema importância é praticar qualquer que seja a seqüência lembrada da Tensegridade. No final, a saturação levada adiante trará os resultados buscados pelos xamãs do antigo México: a redistribuição da energia e suas três qualidades concomitantes – a inibição do diálogo interno, a possibilidade de silêncio interior e a fluidez do ponto de aglutinação.

Como um contribuição pessoal, posso dizer que, saturando-me com os passes mágicos, Dom Juan realizou duas façanhas formidáveis: primeiro, trouxe para a superfície uma porção de recursos ocultos que eu tinha, mas que não sabia que existiam, como a capacidade de me concentrar e a capacidade de me lembrar de detalhes, e segundo, rompeu gentilmente minha obsessão com o meu modo linear de interpretação.

Quando o questionei sobre o que eu estava experimentando a esse respeito, Dom Juan me explicou:

-O que está acontecendo é que você está sentindo o advento do silêncio interior, uma vez que o seu diálogo interno tem sido minimamente ressaltado. Um novo fluxo de coisas tem começado a entrar no seu campo de percepção. Essas coisas sempre estiveram lá, na periferia da sua consciência geral, mas você nunca teve energia suficiente para ficar deliberadamente consciente delas. À medida que você enxota o seu diálogo interno, outros itens de percepção começam a preencher o espaço vazio e, portanto, a falar.

O novo fluxo de energia que os passes mágicos trouxe para o seus centros de vitalidade está tornando o seu ponto de aglutinação mais fluido. Ele não está mais rigidamente paralisado. Você não está mais sendo dirigido pelos nossos ancestrais que nos tornam incapazes de darmos um passo em qualquer direção. Os feiticeiros dizem que a energia nos torna livre, e esta é a absoluta verdade.

Passes Mágicos – Carlos Castaneda

26 de dez de 2008

A Recapitulação

De acordo com o que Dom Juan ensinava a seus discípulos, a recapitulação era uma técnica descoberta pelos feiticeiros do antigo México e usada por todos os xamãs praticantes dali por diante, de examinar e reviver todas as experiências de suas vidas para alcançar dois objetivos transcendentais: o objetivo abstrato de cumprir um código universal que exige que a consciência seja abandonada no momento da morte e o objetivo extremamente pragmático de adquirir fluidez perceptiva.

Ele dizia que a formulação do primeiro objetivo era o resultado de observações que os feiticeiros fizeram através de sua capacidade de ver a energia diretamente como ela flui no universo. Eles tinham visto que no universo existe uma força gigantesca, um imenso conglomerado de campos de energia que eles chamaram a águia ou o mar escuro da consciência. Eles observaram que o mar escuro da consciência é a força que empresta consciência a todos os seres vivos, do vírus ao homem. Acreditavam que a força empresta consciência a um ser recém-nascido e que este ser aumenta aquela consciência através das suas experiências de vida até o momento em que a força exige sua devolução.

No entendimento dos feiticeiros, todos os seres vivos morrem porque são forçados a devolverem a consciência que lhes foi emprestada. Através das eras, os feiticeiros têm entendido que não existe nenhuma maneira do que o homem moderno chama de o nosso modo linear de pensamento explicar um fenômeno como este, não há como explicar como a consciência é emprestada e depois retomada. Os feiticeiros do antigo México viam isto como um fato energético do universo, um fato que não pode ser explicado em termos de causa e efeito ou em termos de um propósito que pudesse ser determinado a priori.

Os feiticeiros da linhagem de Dom Juan acreditavam que recapitular significava dar ao mar escuro da consciência o que ele estava buscando: as suas experiências de vida. Entretanto acreditavam que, através da recapitulação, poderiam adquirir um grau de controle que lhes permitiria separar as experiências de vida da sua força vital. Para eles, as duas não estavam insoluvelmente entrelaçadas; só estavam unidas circunstancialmente.

Esses feiticeiros afirmavam que o mar escuro da consciência não quer tirar a vida dos seres humanos; só quer as experiências de vida. A falta de disciplina nos seres humanos os impede de separar as duas forças e, no final, eles perdem suas vidas, onde se esperava que perdessem apenas a força das experiências de vida. Os feiticeiros viam a recapitulação como o procedimento através do qual eles poderiam dar ao mar escuro da consciência um substituto para suas vidas. Eles abriam mão das experiências de vida relatando-as, mas retinham sua força vital.

Quando examinadas em termos dos conceitos lineares do nosso mundo ocidental, as alegações perceptivas dos feiticeiros não fazem nenhum sentido. A civilização ocidental tem estado em contato com os xamãs do Novo Mundo há quinhentos anos e nunca um discurso filosófico sério baseado nas declarações feitas pelos xamãs.
Por exemplo, para qualquer membro do mundo ocidental, a recapitulação pode parecer coerente com a psicanálise, algo na linha de um procedimento psicológico, uma espécie de técnica de auto-ajuda. Nada poderia estar mais distante da verdade.

De acordo com Dom Juan Matus, o homem sempre perde por negligência. No caso das premissas da feitiçaria, ele acreditava que o homem ocidental está perdendo uma tremenda oportunidade para intensificar a sua consciência e que a maneira como o homem ocidental se relaciona com o universo, a vida e a consciência é apenas uma entre múltiplas opções.

Para os xamãs praticantes, recapitular significava dar a uma força incompreensível – o mar escuro da consciência – a própria coisa que ela parecia estar procurando: as experiências de vida, isto é, a consciência que eles ampliaram através daquelas próprias experiências de vida. Já que provavelmente Dom Juan não poderia me explicar esses fenômenos em termos de lógica clássica, ele dizia que tudo o que os feiticeiros podiam desejar fazer era realizar a façanha de reter sua força vital sem saber como isso era feito. Também dizia que havia milhares de feiticeiros que tinham conseguido fazer isso. Tinham conservado a sua força vital após terem dado ao mar escuro da consciência a força das experiências de vida. Para Dom Juan, isso significava que esses feiticeiros não morreram no sentido usual como entendemos a morte, mas transcenderam-na retendo sua força vital e desaparecendo da face da terra, embarcando em uma viagem definitiva de percepção.

A crença dos xamãs da linhagem de Dom Juan era que, quando a morte acontece dessa forma, todo o nosso ser transforma-se em energia, um tipo especial de energia que conserva a marca da nossa individualidade. Dom Juan tentava explicar isso em um sentido metafórico dizendo que nós somos compostos de um número de nações unitárias: a nação dos pulmões, a nação do coração, a nação do estomago, a nação dos rins e assim por diante. Ás vezes cada uma dessas nações funciona independentemente das outras, mas no momento da morte todas elas são unificadas em uma única entidade. Os feiticeiros da linhagem de Dom Juan chamavam esse estado de “liberdade total”. Para os feiticeiros, a morte é uma unificadora e não uma exterminadora, como ela o é para o homem comum.

- Esse estado é a imortalidade, Dom Juan? – perguntei.
- Isso de modo algum é a imortalidade – respondeu ele. – É simplesmente a entrada em um processo evolucionário, usando o único meio para a evolução que o homem tem à sua disposição: a consciência. Os feiticeiros da minha linhagem estavam convencidos de que, biologicamente, o homem não poderia evoluir mais; consequentemente, consideravam a consciência do homem o único meio para evoluir.
No momento de morrer os feiticeiros não são aniquilados pela morte, mas transformados em seres inorgânicos: seres que tem consciência, mas não um organismo. Para eles, serem transformados em um ser inorgânico era evolução e isso significava que um novo tipo indescritível de consciência lhes era emprestado, uma consciência que permaneceria por verdadeiramente milhões de anos, mas que algum dia também precisaria se devolvida ao doador: o mar escuro da consciência.

Uma das descobertas mais importantes dos xamãs da linhagem de Dom Juan foi que, como todas as outras coisas do universo, o nosso mundo é uma combinação de duas forças opostas e ao mesmo tempo complementares. Uma dessas forças é o mundo que conhecemos, que os feiticeiros chamavam de o ‘mundo dos seres orgânicos’. A outra força é algo que eles chamavam ‘o mundo dos seres inorgânicos’.

- O mundo dos seres inorgânicos – dizia Dom Juan – é povoado por seres que possuem consciência, mas não um organismo. Eles são conglomerados de campos de energia, exatamente como nós o somos. Aos olhos de um vidente, em vez de seres luminosos, como os seres humanos o são, eles são bastante opacos. Não são configurações energéticas arredondadas, mas sim alongadas, como uma vela. Em essência, são conglomerados de campos de energia que, assim como nós, têm coesão e limites. São mantidos unidos pela mesma força aglutinadora que mantém os nossos campos de energia unidos.

- Onde fica esse mundo inorgânico, Dom Juan? – perguntei.
- É o nosso mundo gêmeo – respondeu ele. – Ocupa o mesmo tempo e o mesmo espaço que o nosso mundo, mas o tipo de consciência do nosso mundo é tão diferente do tipo de consciência do mundo inorgânico que nós nunca notamos a presença dos seres inorgânicos, embora eles notem a nossa.
- Os seres inorgânicos são seres humanos que evoluíram? – perguntei.
- Absolutamente não! – exclamou ele. – Os seres inorgânicos do nosso mundo gêmeo têm sido intrinsecamente inorgânicos desde o início, do mesmo modo como temos sido sempre intrinsecamente seres orgânicos, também desde o início. Eles são seres cuja consciência pode evoluir exatamente como a nossa, e sem dúvida o faz, mas não tenho nenhum conhecimento direto de como isso acontece. Entretanto o que sei é que um ser humano cuja a consciência evoluiu é um ser inorgânico brilhante, luminescente e arredondado de um tipo especial.

Dom Juan me deu uma série de descrições desse processo evolucionário, que eu sempre assumi como metáforas poéticas. Eu escolhia a que me agradava mais, que era a ‘liberdade total’. Imaginava um ser humano que entra em liberdade total como sendo o ser mais corajoso, mais imaginativo possível. Dom Juan dizia que eu não estava fantasiando absolutamente nada – que, para entrar em liberdade total, um ser humano deve invocar o seu lado sublime que, dizia ele, os seres humanos têm mas que nunca lhes ocorre usar.

Dom Juan descrevia o segundo, o objetivo pragmático da recapitulação, como a aquisição de fluidez. O fundamento lógico dos feiticeiros por trás disso tinha a ver com um dos assuntos mais evasivos da feitiçaria: o ‘ponto de aglutinação’, um ponto de intensa luminosidade, do tamanho de uma bola de tênis, perceptível quando os feiticeiros ‘vêem’ um ser humano como um conglomerado de campos de energia.
Feiticeiros como Dom Juan ‘vêem’ que trilhões de campos de energia na forma de filamentos de luz vindos do todo o universo convergem ao ‘ponto de aglutinação’ e o atravessam. Essa confluência de filamentos dá ao ponto de aglutinação a sua luminosidade. O ‘ponto de aglutinação’ possibilita que um ser humano perceba aqueles trilhões de filamentos de energia transformando-os em dados sensoriais. Depois o ponto de aglutinação interpreta esses dados como o mundo da vida cotidiana, isto é, em termos de socialização e do potencial humano.

Recapitular é reviver todas ou quase todas as experiências que tivemos e, fazendo isso, deslocar o ponto de aglutinação, ligeiramente ou bastante, impelindo-o pela força da memória a adotar a posição que tinha quando o acontecimento que está sendo recapitulado ocorreu. Esse ato de ir de um lado para o outro de posições anteriores à atual proporciona aos xamãs praticantes a fluidez necessária para suportarem diferenças extraordinárias em suas viagens pelo ‘infinito’. Para os praticantes da Tensegridade, a recapitulação proporciona a fluidez necessária para suportarem diferenças que não fazem parte, de modo algum, de sua cognição habitual.

Como um procedimento formal, a recapitulação era feita nos tempos antigos recordando-se de cada pessoa que os praticantes conheciam e de cada experiência em que tomavam parte. Dom Juan sugeria que, no meu caso, que é o caso do homem moderno, eu fizesse uma lista por escrito de todas as pessoas que eu tinha conhecido em minha vida, como um estratagema mnemônico. Uma vez que eu tivesse escrito a lista, e.e continuaria a me dizer como usa-la. Eu precisava pegar a primeira pessoa da minha lista, que retrocedia no tempo do presente até a época da minha primeiríssima experiência de vida, e, na minha memória, estabelecer a minha última interação com aquela primeira pessoa. Essa ação é chamada de organizar o acontecimento a ser recapitulado.

Uma detalhada recordação de minúcias é requerida como o meio apropriado de afiar a capacidade de lembrar. Essa recordação envolve obter todos os detalhes físicos pertinentes, tal como o ambiente no qual o acontecimento recordado ocorreu. Uma vez que o acontecimento está organizado, a pessoa deve realmente entrar no local em si, prestando especial atenção a quaisquer configurações físicas relevantes.

Por exemplo, se a interação aconteceu em um escritório, o que deve ser lembrado é o chão, as portas, as paredes, os quadros, as janelas, as mesas, os objetos sobre as mesas, todas as coisas que poderiam ter sido observadas em um relance e depois esquecidas.

“Como um procedimento formal, a recapitulação deve começar pelo relato minucioso de acontecimentos que acabaram de ocorrer. Dessa forma, a primazia da experiência tem precedência. Alguma coisa que acabou de ocorrer é algo que a pessoa pode se lembrar com grande precisão. Os feiticeiros sempre confiaram no fato de que os seres humanos são capazes de armazenar informações detalhadas das quais não estão conscientes e de que aquele detalhe é o que o mar escuro da consciência procura.

A verdadeira recapitulação do acontecimento requer que a pessoa respire profundamente, abanando a cabeça, por assim dizer, muito lenta e delicadamente, de um lado para outro, começando por qualquer que seja o lado, esquerdo ou direito. Esse abano da cabeça era feito tantas vezes quantas fossem necessárias, enquanto a pessoa se lembrava de todos os detalhes acessíveis. Dom Juan dizia que os feiticeiros falavam sobre esse ato como inalar todos os sentimentos que a pessoa teve no acontecimento sendo recordado e expelir todos os humores indesejáveis e os sentimentos irrelevantes que permaneceram nela.


Os feiticeiros acreditam que o mistério da recapitulação reside no ato de inalar e exalar. Uma vez que a respiração é uma função de manutenção da vida, os feiticeiros tem certeza de que através dela a pessoa também pode entregar ao mar escuro da consciência o fac-símile das suas experiências de vida. Quando eu pressionava Dom Juan por uma explicação racional sobre essa idéia, sua posição era que coisas como a recapitulação só podiam ser experimentadas e não explicadas. Ele dizia que no ato de fazer a pessoa pode encontrar a libertação e que explicar isso era dissipar nossa energia em esforços infrutíferos. Seu convite era coerente com todas as coisas relacionadas ao seu conhecimento: o convite para entrar em ação."

Na recapitulação a lista de nomes é usada como um estratagema mnemônico que impele a memória em uma viagem inconcebível. A posição dos feiticeiros a esse respeito é que relembrar acontecimentos que acabaram de ocorrer prepara o solo para a recordação de acontecimentos mais distantes no tempo com a mesma clareza e proximidade. Recordar experiências desse modo é revivê-las e extrair dessa recordação um ímpeto extraordinário que é capaz de despertar a energia dispersada dos nossos centros de vitalidade e fazê-la retornar para eles.
Os feiticeiros se referem a essa redistribuição de energia que a recapitulação causa como obter fluidez após dar ao mar escuro da consciência o que ele está procurando.

Carlos Castaneda - Passes Mágicos

Mantak Chia

Mantak Chia

Carlos Castaneda

Carlos Castaneda

Ramana Maharshi

Sobre o que deve-se pensar durante a meditação?

O que é meditação? É a suspensão dos pensamentos. Você é pertubado por seus pensamentos, que surgem um atras do outro. Segure um só pensamento para que os outros sejam excluídos. A prática contínua dá a força mental mental necessária para meditar. A meditação difere de acordo com o nível de desenvolvimento do buscador. Se a pessoa está preparada ela pode diretamente agarrar aquele que pensa, e então o pensador será naturalmente absorvido de volta a Fonte de onde surgiu, que é a Consciência Pura. Se a pessoa não consegue diretamente agarrar o pensador, ele deve meditar em Deus e, com o tempo ela se tornará pura o bastante para agarrar o "eu" que pensa e mergulhar no Ser absoluto.

Os Ensinamentos de Ramana Maharshi em Suas Próprias Palavras

Nisargadatta Maharaj

Eu Sou Aquilo - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj

O que nasce deve morrer

Pergunta: É permanente a consciência que testemunha?
Maharaj: Não é permanente. O conhecedor surge e desaparece com o conhecido.
Aquele em que ambos, o conhecedor e o conhecido, surgem e desaparecem, está além do tempo. As palavras “permanente” e “eterno” não tem aplicação aqui.

P: No sono profundo não existem nem o conhecido nem o conhecedor. O que mantém o corpo sensível e receptível?
M: Não pode dizer de nenhum modo que o conhecedor estava ausente. Não havia experiência de coisas e pensamentos, isso é tudo. Mas a ausência de experiência também é uma experiência. É como entrar em uma habitação escura e dizer: “não vejo nada”. O homem cego de nascimento não sabe o que significa a escuridão. De maneira similar, só o conhecedor sabe que não sabe. O sono profundo é meramente um lapso da memória. A vida continua.

P: E o que é a morte?
M: É a mudança do processo de vida de um corpo individual. A integração acaba, e começa a desintegração.

P: E o que acontece com o conhecedor? Com o desaparecimento do corpo, desaparece o conhecedor?
M: Assim como o conhecedor do corpo aparece no nascimento, na morte ele desaparece.

P: E não resta nada?
M: Resta a vida. A consciência necessita um veículo e um instrumento para sua manifestação. Quando a vida produzir outro corpo, outro conhecedor vem a existir.

P: Há uma união causal entre os sucessivos corpos/conhecedores ou corpos/mentes?
M: Sim, existe algo que poderia ser chamado corpo da memória, ou corpo causal, um registro de tudo que se pensou, quis e se fez. É como um nuvem de idéia agrupadas

P: O que é este sentido de existência separada?
M: Um reflexo em um corpo separado da única realidade. Neste reflexo se confundem o ilimitado com o limitado, tomados como o mesmo. Desfazer esta confusão é o propósito da yoga.

P: A morte não desfaz esta confusão?
M: Na morte, só morre o corpo. A vida não morre, a consciência não morre, a realidade não morre. Inclusive, a vida nunca está tão viva como depois da morte.

P: Mas volta-se a renascer?
M: O que nasceu deve morrer. Só o que não nasceu é imortal. Encontre o que nunca dorme e nunca desperta, e cujo o pálido reflexo é nosso sentido de “eu”.

P: O que devo fazer para encontrá-lo?
M: Como você encontra alguma coisa? Pondo o coração e mente nela. Deve haver interesse e recordação constantes. Recordar o que necessita ser recordado é o segredo do êxito. Chega-se a ele mediante a seriedade

P: Quer dizer simplesmente que o desejo de descobrir é suficiente? Certamente serão necessárias qualificações e oportunidades.
M: Estas chegarão com a seriedade. O que é supremamente importante é liberar-se das contradições; a meta e o caminho não devem estar em níveis diferentes; a vida e a luz não devem opor-se, o comportamento não
deve trair as crenças. Chame-o de honestidade, integridade, totalidade; não deve ir para trás, desfazer, desenraizar, abandonar o terreno conquistado. A tenacidade de propósito e a honestidade na busca o levarão a sua meta.

Eu Sou Aquilo - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj